O professor Muniz Sodré (Folha 08/09/2025) acha que o problema de Lula é menos o da comunicação e mais o de ter que enfrentar o Centrão. Este, por vocação, não fala, mas age. Não vou contestar o professor Sodré. O embate no Congresso é real, quem não vê? Mas, não foi sempre assim nos governos de Lula? Tanto ele quanto Dilma governaram com arcos de alianças bem amplos, e tiveram aprovação do Congresso quando dobraram a oposição por conta de aprovação popular. Difícil dizer que agora, quanto ao embate congressual, é diferente.
O que é diferente, agora, é que o clima de requisição da população para ser feliz, em se tratando de Lula, é mais exigente. Ninguém compara Lula com Bolsonaro. A população quer mais de quem diz que tem capacidade para dar mais. Lula desperta esperança. Bolsonaro nunca despertou esperança, nem mesmo do eleitorado dele. É natural que a população sinta que o “paraíso da picanha” não chegou.
Sim, é estranho isso, mas é verdade: se você promete para a população que cada um vai se virar e que o governo não vai ajudar em nada, e apesar disso, você ganha uma eleição, você tem a prerrogativa de matar 700 mil pessoas e culpar a natureza ou então dizer que o Drauzio Varella é que errou falando que era “uma gripinha”. Caso você diga que vai governar para “cuidar do povo”, isso muda tudo. Até os que não votaramm em você começam a titubear quanto a se manter na descrença. Muitos começam a abandonar a posição de Hardy, aquela hiena pessimista que anda pelas florestas junto do leão Lippy. Lembram? “Oh céus, ó vida”, exclamava a hiena, seja lá o que for que viesse. Quando alguém que realmente já fez algo pela população promete que vai trazer a picanha dos céus para a terra, até o tiozão do pavê, bolsonaróide de mesa de Natal, começa, mesmo às escondidas, querer acreditar.
A situação de Lula é exatamente esta: ele é julgado com muito mais severidade que qualquer outro governo. Por isso, ele não está errado em acreditar que havia no governo um defeito de comunicação. Pimenta sempre foi um deputado de pouca inteligência. Sidônio é melhor? O professor Sodré acha que o PT confunde comunicação com propaganda. Diz que isso é a esquerda antideluviana. Concordo, trata-se do velho “departamento Agitprop” do leninismo. Pode ser, no entanto, que Sidôneo não seja um mero marqueteiro. Pode ser que ele empurre o PT, ao menos em parte, para a tarefa comunicacional.
A tarefa comunicacional não se reduz ao dilema “digital versus analógico”. Penso que o professor Muniz Sodré dá muito valor a essa distinção. Apesar dele ver problemas mais na política que na comunicação, senti na leitura de seu artigo que ele é daqueles que, junto com boa parte da imprensa, acha que o PT envelheceu diante do mundo digital. Ora, todos nós envelhecemos diante do mundo digital. O tombo que as big techs sofreram do DeepSeek chinês, nesses dias, mostram que os papas da comunicação e negócios digitais são tão inexperientes quanto nós, os professores mais velhos que escrevemos a lápis e ainda gostamos de fazer sexo. Ninguém é suficiente contemporâneo no capitalismo financeiro associado ao capitalismo de plataforma.
A política é o lugar em que atira-se no que vê e pode se acertar no que não vê. O êxito de Nikolas com a mentira do Pix, eu já expliquei, foi um tiro no escuro. Fez efeito porque foi uma mentira com lastro. Uma verdade com lastro tem também seu valor. Para falar algo e ser ouvido é necessário entrar no campo do pragmatismo da vida. O que é que, uma vez falado, realmente atinge a preocupação das pessoas, aquela preocupação que está arraigada por anos e anos de histórias? Que um governo gosta de impostos, ora, essa é a história do capitalismo, até de antes: Robin Hood resolveu roubar o Rei João por conta de que o mandatário estava cobrando cada dia mais impostos. Está na mentalidade popular a preocupação com o fisco. E ninguém disfarça. O símbolo do fisco no Brasil é um leão! Não foi pelo manejo da mídia digital somente que Nikolas feriu o governo. Ele feriu por conta de que usou o meio digital para chamar a atenção para um bicho que já é grande faz tempo: o leão.
A tarefa do PT é estar na mídia para falar de coisas que estejam, faz tempo, em sonhos e pesadelos, em camadas nem sempre evidentes do mundo mental. Trata-se de um trabalho antes de psicologia política do que de psicologia social. Há muita verdade com lastro que pode ser dita. Lula conhece várias. Devem ser ditas. Um elenco dessas verdades, uma vez ditas com capricho, sem o tom de propaganda ou desculpa, é o caminho a ser trilhado. De resto, o Brasil pode repetir a sorte do boom das comodities do primeiro governo Lula, quando a China crescia adoidado. Mesmo não crescendo como naquela época, a China é de novo a bola da vez do Brasil, e Trump está ajudando. Esse é o lado da sorte, o lado da competência é saber dizer o que pega, o que faz as pessoas pararem para abrir um site, pedirem mais informação, se disporem a parar a vida para ouvir um político. Toda vez que Lula vê a sorte pintar, ele surfa.
A direita? Ora, a direita não tem candidato. Basta Lula começar a dizer as verdades com lastro, e que sejam coisas que façam cada brasileiro consultar a infosfera, curioso.
Paulo Ghiraldelli. Professor e filósofo. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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O cara
A imprensa tem dito que falta algo novo para ser a marca do governo Lula 3. O próprio Lula já disse que a população quer mais… A forma e a eficiência da comunicação são fundamentais, ocorre, que o segundo tempo do jogo já está rolando. Vamos lá amigos da Esquerda Reflexiva, o professor Paulo sempre fez a parte dele, precisamos equacionar soluções…
Muitas vezes as sugestões de melhoria podem decorrer da simples observação do cotidiano. Por exemplo, estou terminando um estudo e vou fazer um livro digital dele. Hoje achei um curso introdutório – de 10 anos atrás – em Sigil na web, cujo primeiro passo é baixar um livro de domínio público em pdf da plataforma do governo. No vídeo do prof. o acesso à informação na plataforma do governo era simples e direto, mas 10 anos depois… as informações são difíceis de encontrar.
O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) é gerido pela Professora Esther Dweck (economista) e a Secretaria de Governo Digital (SGD), vinculada ao MGI, é a responsável por gerenciar as plataformas digitais do governo. Penso que precisa reforçar o time urgentemente. Particularmente, sempre que busco uma informação nas plataformas do governo tenho encontrado dificuldade, ou pior, por vezes não consigo encontrar a informação.
Sugestão: – Precisa melhorar o algoritmo de busca nas bases de dados do governo federal e simplificar a entrega da informação. Talvez, num primeiro momento, utilizando em segundo plano o SeekDeep ou ChatGPT, ou ambos. E iniciar um projeto de “Busca Inteligente” nas bases de dados do governo federal.
O problema decorrente de fazer uma sugestão, está novamente relacionado com a comunicação: – Como fazer a sugestão chegar? Uma vez mandei uma sugestão através do portal “Fale com o Presidente”. Nunca recebi nenhuma resposta, nem protocolar… fácil não. Mas, como dizem que a Esperança é a última que morre, acabei de mandar a sugestão pelo portal https://falepr.presidencia.gov.br/
Uma pena que a social democracia esteja do lado do PT! Bem que o governo lula é uma social democracia debaixo do pano, mas o ideal de estado de bem estar social parece não existir mais! Acho que a crise representativa que o mundo esta inserido marca por algum tempo essa dicotomia entre a esquerda e a direita, pois nem mesmo a democracia cristã tem força para se impor, quanto mais um projeto baseado em reformas sociais caro a social democracia.
O problema é que Lula não conversa com a população. Não tem se exposto emdiálogo nem nas redes digitais, nem em rede nacional de rádio e televisão. Não tem se disposto a cumprir seu papel pedagógicio, tarefa política exortada por Boaventura Souza Santos e que tem sido esquecida há tempos. Mas ainda há tempo.
Perfeito. Gostei muito. A verdade não é tão sensacionalista, mas deve ser dita. E Lula sabe bem encantar e comunicar o que quiser.
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